CASO MASTER: MENSAGENS E DOCUMENTOS CITAM SEIS MINISTROS OU FAMILIARES E APROFUNDAM CRISE NO STF

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Imagem: Rosinei Coutinho/STF

Relatórios da Polícia Federal, dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro e negócios envolvendo pessoas próximas a integrantes da Corte colocaram o Supremo no centro de uma crise institucional sem precedentes

O Caso Master, apontado como um dos maiores escândalos financeiros da história recente do Brasil, começou a ser investigado em 2024 e ganhou dimensão nacional em novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero.

Desde então, a operação chegou à décima fase e revelou um suposto esquema bilionário envolvendo emissão de títulos de crédito falsos, carteiras inexistentes, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos e desviar recursos.

As investigações também identificaram uma suposta milícia privada, chamada “A Turma”, que teria sido utilizada por Daniel Vorcaro para intimidar desafetos, atacar críticos e promover ações contra adversários. A análise dos celulares do ex-banqueiro revelou ainda uma extensa rede de relações nos meios político, jurídico e empresarial.

As descobertas provocaram uma grave crise no Supremo Tribunal Federal (STF), sobretudo após a divulgação de mensagens, contratos, reuniões e negócios envolvendo ministros ou familiares de integrantes da Corte.

Desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, cuja vaga ainda não foi preenchida, o STF funciona com dez ministros. Desses, seis foram citados nominalmente ou tiveram familiares mencionados em documentos relacionados ao caso: Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Edson Fachin e Flávio Dino são os demais integrantes do tribunal e, até o momento, não foram citados nas revelações do caso. A simples menção a um ministro ou familiar, porém, não representa prova de participação em crime.

Lula diz que Vorcaro “corrompeu todo mundo”

Na sexta-feira (18), o presidente Lula (PT) afirmou que Daniel Vorcaro teria “corrompido todo mundo” e envolvido integrantes do Judiciário, deputados e senadores.

Durante entrevista à Rádio Tupi, Lula também acusou o ex-banqueiro de financiar orgias e trazer mulheres do exterior para encontros com pessoas influentes. As declarações foram apresentadas pelo presidente como referência ao material extraído do celular de Vorcaro.

“Ele envolveu gente da Suprema Corte, deputados, senadores, todo mundo”, declarou Lula.

STF analisa possível investigação contra integrantes da própria Corte

Na terça-feira (15), o Supremo realizou uma sessão considerada histórica ao discutir a possibilidade de abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por causa das mensagens atribuídas à relação do ministro com Vorcaro.

O julgamento foi marcado por bate-boca, acusações e divergências entre os magistrados. A sessão terminou sem decisão após Flávio Dino pedir vista, o que suspendeu a análise por até 90 dias.

O relatório da Polícia Federal levado ao plenário possui 218 páginas. A PF recuperou 52 mensagens enviadas por Vorcaro a um contato atribuído a Moraes entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025, dia da primeira prisão do ex-banqueiro.

As respostas atribuídas ao ministro não foram recuperadas. Segundo a investigação, elas teriam sido escritas no bloco de notas, transformadas em imagens e enviadas pelo WhatsApp com visualização única.

Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de votar, enquanto Dias Toffoli se declarou suspeito por motivo de foro íntimo.

Outra sessão estava marcada para terça-feira (23) para analisar a atuação de André Mendonça na condução do Caso Master. O julgamento, entretanto, foi suspenso pelo presidente do STF, Edson Fachin, enquanto o tribunal decide se os casos de Moraes e Mendonça devem ser examinados conjuntamente ou separadamente.

Moraes pediu a investigação do colega sob o argumento de que Mendonça teria direcionado apurações e mantido informações sob sigilo para atingir outro ministro da Corte. Mendonça nega qualquer irregularidade.

A Polícia Federal identificou 52 mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a um contato atribuído a Alexandre de Moraes. Nos textos, o ex-banqueiro aparentemente buscava informações e orientações para tentar conter as investigações que resultariam em sua prisão.

Em 17 de novembro de 2025, dia em que foi detido, Vorcaro escreveu: “Fiz uma correria aqui para tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação. Alguma novidade? Conseguiu ter notícia de bloquear?”.

Como as respostas atribuídas a Moraes teriam sido enviadas por visualização única, não foi possível recuperar o conteúdo.

A investigação também identificou um contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3 milhões e poderia alcançar R$ 131 milhões. Até a liquidação do banco, aproximadamente R$ 80 milhões teriam sido pagos.

Segundo a PF, metadados do arquivo indicam que Alexandre de Moraes teria editado a versão final do contrato antes da assinatura. Também foi localizada uma proposta paralela de R$ 50 milhões, envolvendo ativos como cotas de aeronaves, mas a negociação não teria sido concretizada.

Moraes ainda teria colaborado na organização do I Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em Londres entre os dias 24 e 26 de abril de 2024, com a presença de autoridades e ministros do Supremo.

Documentos também apontaram que Moraes e a esposa utilizaram aeronaves de empresas ligadas a Vorcaro entre maio e outubro de 2025. Um vídeo divulgado no domingo (20) mostrou o casal desembarcando de um desses aviões no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em agosto de 2025.

O escritório Barci de Moraes confirmou que contratou serviços de táxi aéreo, mas afirmou que a escolha das aeronaves era responsabilidade da empresa contratada e que Vorcaro nunca esteve presente nos voos.

O ministro nega ter recebido mensagens no dia da prisão e classifica os diálogos como “fantasiosos”. Moraes também sustenta que os serviços prestados pelo escritório da esposa pertencem à esfera privada, sem interferência em sua atuação no STF, e afirma nunca ter julgado processos relacionados a Vorcaro ou ao Banco Master.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicam que o ex-banqueiro se reuniu com André Mendonça em março de 2025, no Instituto Iter, entidade fundada pelo ministro.

Vorcaro também foi convidado para eventos promovidos pelo instituto, embora não exista confirmação de que tenha comparecido. Em setembro deste ano, Mendonça deixou oficialmente a sociedade da entidade.

O Iter recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding controlada pelo empresário mineiro Lucas Kallas, antigo parceiro de negócios de Vorcaro. O instituto e a Cedro afirmam que a operação ocorreu por meio de um contrato regular de empréstimo e negam irregularidades.

Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, por iniciativa do próprio empresário. Segundo o ministro, a conversa foi limitada a uma ação envolvendo precatórios que estava em julgamento no Supremo.

O ministro afirma que suas decisões como relator do Caso Master buscaram assegurar transparência, devido processo legal e acesso às informações. Ele também ressalta que votou contra interesses ligados ao ex-banqueiro em processos sobre precatórios.

Dias Toffoli foi mencionado em diálogos relacionados a uma festa promovida por Vorcaro na casa noturna Madame Satã, em São Paulo, no dia 31 de outubro de 2023.

Em uma das mensagens, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria escreveu que “Toffoli também vai tentar” comparecer depois de presidir uma sessão no tribunal. Não há registros que comprovem a presença do ministro na festa.

A ligação de Toffoli com o caso também envolve o Tayayá Aqua Resort, localizado no Paraná. A família do ministro possuía participação no empreendimento por meio da empresa Maridt.

Relatórios e documentos apontaram operações financeiras entre a empresa familiar e fundos relacionados à gestora Reag, investigada por supostas conexões com o esquema do Banco Master. Toffoli reconheceu que era sócio da empresa da família, mas negou qualquer ligação financeira com Vorcaro.

O ministro também declarou que nunca recebeu valores de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel, cunhado do ex-banqueiro, e afirmou que as operações envolvendo o resort foram declaradas à Receita Federal.

Toffoli deixou a relatoria do Caso Master e posteriormente declarou-se suspeito para participar do julgamento sobre Moraes.

Gilmar Mendes foi citado em mensagens relacionadas ao envio de um convite para o I Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em Londres. Não foram identificados repasses financeiros em nome do ministro.

Também foi revelado que Vorcaro se reuniu com Gilmar em 11 de abril de 2024, no gabinete do ministro no STF. Na ocasião, o ex-banqueiro buscava apoio em uma causa bilionária relacionada a indenizações de usinas do setor sucroalcooleiro.

O Banco Master possuía créditos dessas empresas na forma de precatórios e poderia ser beneficiado por uma decisão favorável. Gilmar Mendes, entretanto, votou contra os interesses defendidos pelo banco nos julgamentos relacionados ao tema.

Em nota, o gabinete informou que a audiência ocorreu na sede do tribunal, em ambiente institucional, com a participação de advogados do Master. O ministro afirmou que o recebimento de advogados é uma prerrogativa legal e destacou que seu voto foi contrário ao pagamento dos precatórios.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicam que o ex-banqueiro teria providenciado o aluguel de uma mansão no Rio de Janeiro para hospedar um ministro identificado como “KN” durante o Carnaval de 2025.

A Polícia Federal considera que as iniciais seriam uma referência a Kassio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O imóvel, avaliado em cerca de R$ 250 milhões, teria sido alugado por aproximadamente R$ 1,45 milhão durante uma semana.

O nome do filho do ministro, o advogado Kevin Marques, também apareceu em diálogos entre Vorcaro e um ex-diretor jurídico do Banco Master. As conversas mencionavam supostos pagamentos de “R$ 500 mil por mês”.

Kevin Marques nega ter prestado serviços ou recebido recursos de Vorcaro ou do Banco Master. Sua defesa afirma que ele recebeu honorários de uma consultoria privada por serviços jurídicos na área tributária, sem qualquer relação com processos do STF.

Nunes Marques declarou que nunca trocou mensagens com Vorcaro, nunca solicitou qualquer benefício ao ex-banqueiro e desconhecia a reserva da mansão. O ministro também afirmou publicamente que o filho jamais trabalhou para o Master.

O nome de Luiz Fux aparece no caso por causa de mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro.

Os diálogos demonstram proximidade entre os dois, com o uso de expressões como “irmão” e “amigo”. Rodrigo também teria atuado para articular a participação do pai no fórum realizado em Londres e orientado Vorcaro a enviar informações sobre o encontro à secretária do ministro no STF.

A Fux Advogados afirmou que nunca prestou serviços, apresentou proposta de trabalho ou recebeu valores de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas ao grupo.

Segundo o escritório, houve apenas uma tentativa de aproximação comercial por parte de Vorcaro, que não se concretizou. A assessoria do ministro também ressaltou que a atuação profissional do filho é independente e não exerce influência sobre os julgamentos do gabinete.

As investigações do Caso Master continuam em andamento. Até o momento, as citações, encontros ou relações profissionais e familiares reveladas não representam, isoladamente, comprovação de crime. Os fatos ainda deverão ser analisados pelas autoridades competentes, com respeito ao direito de defesa e à presunção de inocência.

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