
A possibilidade de um novo episódio de El Niño de forte intensidade nos próximos meses já mobiliza especialistas, produtores rurais e representantes do setor produtivo em Pernambuco. Caso as projeções meteorológicas se confirmem, o fenômeno poderá provocar redução das chuvas, aumento das temperaturas e impactos significativos sobre a agricultura, a pecuária, o abastecimento hídrico e a economia do estado.
Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño costuma alterar os padrões climáticos em diversas regiões do planeta. No Nordeste brasileiro, os efeitos mais comuns são a diminuição das precipitações e a ocorrência de períodos prolongados de estiagem, principalmente no Agreste e no Sertão.
A preocupação dos especialistas vai além das questões climáticas. Segundo avaliações de economistas e pesquisadores, os reflexos poderão atingir diretamente o bolso da população, especialmente por meio do aumento dos preços dos alimentos e dos custos de produção em diferentes setores.
De acordo com o economista Paulo Alencar, os impactos econômicos tendem a aparecer de forma mais intensa a partir do momento em que eventuais perdas de produtividade chegarem ao mercado consumidor.
“O Nordeste já enfrenta naturalmente limitações relacionadas à disponibilidade de água. Em um cenário de El Niño forte, a tendência é de redução das chuvas, o que compromete a produção agrícola e afeta diversas cadeias produtivas”, explica.
Entre os produtos que podem sofrer maior pressão estão frutas, hortaliças, leite, carne e outros alimentos perecíveis, cuja produção depende diretamente das condições climáticas.
No campo, os efeitos podem ser ainda mais severos. A pesquisadora do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Francis Lacerda, destaca que os municípios do Semiárido e do Agreste estão entre os mais vulneráveis aos impactos do fenômeno.
Segundo ela, além da diminuição das chuvas, o aumento das temperaturas intensifica a evaporação da água armazenada em açudes, barragens e reservatórios, agravando os desafios relacionados ao abastecimento.
A pecuária também pode ser afetada. Pernambuco possui uma importante bacia leiteira concentrada na região Agreste. Durante períodos de calor intenso e estiagem prolongada, os animais tendem a sofrer estresse térmico, reduzindo a produção de leite e comprometendo a renda dos produtores.
Outro setor que acompanha o cenário com atenção é o energético. A redução dos volumes de chuva pode diminuir os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, aumentando a necessidade de acionamento das usinas termelétricas, que possuem custo operacional mais elevado.
Para o economista Edgar Lima, esse movimento gera um efeito em cadeia sobre toda a economia.
“Quando há redução da produção agrícola, os preços sobem. Ao mesmo tempo, diversos setores industriais dependem de matérias-primas produzidas no campo. Isso acaba ampliando os efeitos econômicos para além da agropecuária”, observa.
Na Zona da Mata, a preocupação também alcança o setor sucroenergético. A redução das precipitações pode afetar o desenvolvimento dos canaviais e comprometer a produtividade da safra de cana-de-açúcar, uma das principais atividades econômicas da região.
Diante das projeções, representantes do setor agropecuário defendem a adoção de medidas preventivas, como ampliação do armazenamento de água, fortalecimento da irrigação, estocagem de forragem para alimentação animal e ampliação das linhas de crédito rural.
Para especialistas, o planejamento antecipado será fundamental para reduzir os impactos de um possível evento climático extremo. A avaliação é que investir em adaptação e infraestrutura hídrica custa menos do que enfrentar os prejuízos provocados por secas prolongadas.
Embora os modelos climáticos ainda estejam sendo monitorados, a possibilidade de um El Niño mais intenso já coloca Pernambuco em estado de atenção. Para produtores, gestores públicos e consumidores, os próximos meses serão decisivos para avaliar a evolução do fenômeno e seus possíveis reflexos sobre a economia e a segurança hídrica do estado.