MORRE OGAN BANGBALA, REFERÊNCIA CENTENÁRIA DO CANDOMBLÉ E GUARDIÃO DA MEMÓRIA AFRO-BRASILEIRA

Imagem: Divulgação

O Brasil se despede de uma de suas maiores referências religiosas e culturais. Ogan Bangbala, reconhecido como o ogan mais velho do país, morreu aos 106 anos, no Rio de Janeiro, após complicações decorrentes de uma infecção renal. Com mais de oito décadas dedicadas ao candomblé, ele se consolidou como símbolo de resistência, tradição e transmissão de saberes ancestrais.

Internado desde 31 de janeiro no Hospital Municipal Salgado Filho, o religioso teve o falecimento confirmado pela família nas redes sociais. O sepultamento ocorreu no Cemitério Jardim Mesquita, na Baixada Fluminense, região onde construiu grande parte de sua trajetória.

De Salvador ao protagonismo nacional

Nascido Luiz Ângelo da Silva, em 21 de junho de 1919, em Salvador, Bangbala foi iniciado ainda jovem no candomblé. Na religião, o ogan desempenha papel fundamental: é responsável por conduzir os toques dos atabaques e sustentar o ritmo que orienta as cerimônias dedicadas aos orixás. Mais do que músico litúrgico, é liderança, referência e elo entre gerações.

Ainda na juventude, mudou-se para Belford Roxo, onde viveu até o fim da vida. Ali, tornou-se uma das vozes mais respeitadas das tradições afro-brasileiras.

Cultura, música e reconhecimento institucional

O legado de Bangbala ultrapassou os muros dos terreiros. Ele foi um dos fundadores do Afoxé Filhos de Gandhy no Rio de Janeiro, fortalecendo a presença da cultura afro-religiosa no espaço público e carnavalesco. Gravou dezenas de álbuns de cânticos em língua iorubá, contribuindo para a preservação de repertórios sagrados e da memória oral africana no Brasil.

Em reconhecimento à sua trajetória, recebeu, em 2014, a Ordem do Mérito Cultural, honraria concedida pela Presidência da República a personalidades que contribuem para o desenvolvimento cultural do país. Também foi homenageado pela escola de samba Unidos do Cabuçu e se tornou tema de exposição no Centro Cultural Correios, em 2024.

O “griot” das tradições

Para o babalorixá Ivanir dos Santos, Bangbala era “o grande griot das nossas tradições”. O termo, originário da África Ocidental, designa aqueles responsáveis por guardar e transmitir as memórias coletivas de seus povos.

A definição sintetiza a dimensão de sua importância: Bangbala foi guardião de ritos, cânticos, histórias e fundamentos religiosos que estruturam a identidade afro-brasileira. Sua atuação ajudou a consolidar o candomblé como patrimônio cultural vivo, resistindo a décadas de intolerância religiosa e invisibilização histórica.

Um legado que se torna ancestral

No candomblé, a morte não representa ruptura definitiva, mas transformação. Líderes religiosos destacam que Bangbala agora se integra ao plano ancestral, permanecendo como referência espiritual nas casas de santo, nos blocos afros e nas manifestações culturais que dialogam com a herança africana.

Aos 106 anos, ele encerra uma trajetória que atravessou mais de um século da história brasileira — da Primeira República aos dias atuais — mantendo intacto o compromisso com a tradição, a fé e a cultura. Seu legado permanece como patrimônio imaterial e inspiração para futuras gerações.

Por: Wesley Souza

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