
Faltando poucos dias para a cerimônia do Academy Awards, o Brasil vive novamente um fenômeno curioso no audiovisual: um clima de torcida coletiva raramente visto fora do futebol. Como em finais de Copa do Mundo, bares, cinemas e cineclubes em diversas cidades estão organizando transmissões da premiação, bolões, quizzes e sessões especiais para acompanhar a 98ª edição da maior noite do cinema, neste domingo (15).
Se em Hollywood o Oscar costuma ser tratado como uma engrenagem sofisticada de campanhas e estratégias de estúdio, no Brasil ele ganhou novos contornos culturais. Nas redes sociais, memes, correntes de torcida e mobilizações espontâneas de cinéfilos ajudam a transformar a temporada de premiações em um evento nacional.
O clima lembra o que aconteceu no ano passado com o filme Ainda Estou Aqui, que conquistou a estatueta de Melhor Filme Internacional e mobilizou torcidas em todo o país.
Agora, o centro dessa expectativa é O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura. O longa chega ao Oscar com indicações a Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator.
Sucesso de público
Os números ajudam a explicar o entusiasmo. Mesmo competindo com superproduções de Hollywood, o filme brasileiro lidera a bilheteria entre os indicados ao prêmio principal.
Segundo dados do portal especializado FILME B, o longa já ultrapassou 2,4 milhões de espectadores, com mais de R$ 50 milhões arrecadados nos cinemas brasileiros. Entre os dez concorrentes ao Oscar de Melhor Filme, também é o longa de menor orçamento — um detalhe que torna sua trajetória ainda mais simbólica.
Dirigido por Mendonça Filho e protagonizado por Moura, o filme se tornou um caso raro no cinema nacional: um projeto autoral que conseguiu dialogar com o grande público sem abrir mão de sua identidade estética.
Sessões coletivas e torcida organizada
Em várias cidades brasileiras, a cerimônia será acompanhada coletivamente — um fenômeno que vem crescendo nos últimos anos.
No Rio de Janeiro, o produtor e exibidor Cavi Borges, fundador da Cavideo e ligado ao Grupo Estação, prepara novamente uma grande festa cinéfila para a transmissão.
Segundo ele, o evento começou de forma quase improvisada, há mais de duas décadas.
“Eu faço essa transmissão ao vivo do Oscar há 25 anos. Começou lá na Cobal do Mytown, quando a Cavideo estava nascendo. Era uma reunião pequena, cinéfila mesmo.”
Nos últimos anos, porém, a reunião ganhou proporções inesperadas.
“No ano passado foi o ápice: quase duas mil pessoas. Cinco salas lotadas e um telão no saguão. Quando o Brasil ganhou o Oscar, o cinema tremeu. Foi histórico.”
Para 2026, a expectativa é de público ainda maior. A programação inclui bolão de apostas, quiz cinéfilo, concurso de sósias de Wagner Moura e transmissão simultânea nas salas do Estação Net Rio e do Estação Net Botafogo.
Efeito no público do cinema brasileiro
Mais do que uma festa, Borges acredita que a mobilização revela um momento especial do cinema nacional.
“Muita gente que não frequentava cinema de arte começou a aparecer. Pessoas que iam ao shopping ver blockbuster foram à Estação para ver Ainda Estou Aqui ou O Agente Secreto. E quando chegam lá descobrem um monte de outros filmes.”
Segundo ele, o movimento também expõe um paradoxo da indústria audiovisual brasileira.
“O Brasil produz cerca de 300 filmes por ano, mas o grande público conhece quatro ou cinco. Quando as pessoas entram na sala por causa de um fenômeno, descobrem que existe muito mais.”
Expectativa internacional
Nas redes sociais, Kleber Mendonça Filho tem demonstrado uma mistura de celebração e responsabilidade diante da mobilização nacional. O diretor agradeceu recentemente a “energia incrível” do público brasileiro e destacou o papel das políticas públicas de incentivo ao audiovisual.
Para o cineasta, o reconhecimento internacional também carrega um significado cultural mais amplo: a presença do filme no Oscar representa uma forma de “soft power brasileiro”, capaz de projetar a cultura e a identidade do país no cenário global.
Ao mesmo tempo, ele reconhece a pressão da disputa. Em entrevistas recentes, comentou sentir “medo de decepcionar” diante da enorme expectativa criada no Brasil.
Nova categoria pode render momento histórico
Entre as categorias da noite, especialistas apontam uma possibilidade especialmente promissora para o país. A nova categoria Melhor Direção de Elenco, criada pela Academia em 2024 e inaugurada nesta edição do Oscar, pode marcar um momento histórico.
O brasileiro Gabriel Domingues foi indicado pelo trabalho em O Agente Secreto, responsável por selecionar mais de 60 atores e combinar nomes consagrados com novos talentos.
A disputa continua aberta
Mesmo com o entusiasmo brasileiro, a corrida pelo Oscar segue imprevisível. Veículos especializados norte-americanos apontam o filme Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, como possível vencedor da principal categoria da noite.
Entre os favoritos a Melhor Ator aparecem nomes como Timothée Chalamet e Michael B. Jordan. Há também trajetórias que Hollywood costuma premiar — como a do veterano Ethan Hawke, um dos atores mais respeitados de sua geração que ainda não conquistou uma estatueta.
Enquanto isso, o Brasil deposita suas fichas em Wagner Moura, que chega à disputa impulsionado por sua recente vitória no Globo de Ouro.
Mais do que uma premiação
Se os prognósticos internacionais permanecem cautelosos, no Brasil o sentimento é outro. Há algo que números, bilheterias e estatísticas não conseguem medir: a mobilização afetiva em torno de um filme.
Nunca tantos portais, canais de cinema, podcasts e perfis nas redes sociais acompanharam com tanta intensidade uma temporada de premiações.
Talvez porque o cinema brasileiro esteja vivendo um momento raro — o de voltar a se enxergar no centro da conversa mundial.
Por: Wesley Souza