
A aprovação do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, na sexta-feira (9), abre novas perspectivas para a economia de Pernambuco, com impacto direto em setores como fruticultura, sucroalcooleiro e indústria automotiva. A assinatura formal do tratado está prevista para 17 de janeiro, mas a entrada em vigor ainda depende do aval do Parlamento Europeu.
O acordo cria condições mais favoráveis para as exportações brasileiras ao mercado europeu, em um momento de rearranjo do comércio internacional após o aumento de tarifas imposto pelos Estados Unidos a produtos do Brasil. Em Pernambuco, a expectativa é de ampliação do acesso ao mercado europeu, com redução ou eliminação de barreiras tarifárias em cadeias produtivas relevantes para o Estado.
No setor sucroalcooleiro, o impacto é considerado positivo. Segundo o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool em Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, o tratado estabelece uma cota de etanol com tarifa zero e cria uma nova cota de 180 mil toneladas de açúcar sem incidência tarifária. “É uma medida saudável para o livre mercado, sobretudo em um cenário global de busca por novos parceiros comerciais”, afirma.
Cunha destaca que o acordo pode compensar parte das perdas causadas pelo tarifaço norte-americano. Atualmente, Pernambuco exporta açúcar para os Estados Unidos dentro de uma cota de 155 mil toneladas, sujeita a tarifa de 50%. No caso do etanol, o tratado com a UE prevê duas cotas: uma de 450 mil toneladas sem tarifa para fins químicos e farmacêuticos e outra de 200 mil toneladas para outros usos, inclusive combustível.
A indústria automotiva também deve ser beneficiada. O acordo prevê a redução gradual das tarifas de importação e exportação de veículos, hoje em torno de 35%. Para o gerente de Política Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Maurício Laranjeira, a medida aumenta a competitividade dos produtos locais. “Ganhamos novos destinos para exportação e um ambiente mais favorável ao livre comércio, o que ajuda a diluir os efeitos do tarifaço”, diz.
Laranjeira ressalta ainda o potencial do polo automotivo pernambucano, impulsionado pela presença da Stellantis no Estado. “A produção de veículos com menor emissão de poluentes, elétricos e híbridos, pode encontrar na Europa um mercado exigente, mas com grande capacidade de absorção”, afirma.
No cenário nacional, o acordo é visto como estratégico. Para o economista Paulo Feldmann, professor da USP e da FIA Business School, o tratado fortalece uma relação comercial já consolidada. “O Brasil já vende muito para a Europa, mesmo sem acordo. Com o tratado, a tendência é ampliar ainda mais essas exportações, especialmente de produtos como café e carne”, avalia.
Feldmann destaca que o acordo ganha relevância em meio à polarização econômica entre Estados Unidos e China. “Ele funciona como um contraponto à pressão que os EUA exercem sobre a América do Sul. A Europa é um mercado gigantesco, com quase US$ 20 trilhões, muito maior do que o mercado brasileiro”, afirma.
Apesar dos benefícios, o economista pondera que alguns segmentos podem enfrentar dificuldades, sobretudo pequenas empresas, que concorrem com negócios europeus fortemente apoiados por políticas governamentais. “São desafios pontuais diante de um conjunto de vantagens mais amplo”, diz.
Na avaliação de especialistas, o acordo tende a tornar o Brasil — e Pernambuco — menos dependente dos mercados norte-americano e chinês, ao mesmo tempo em que amplia o acesso a um dos maiores blocos econômicos do mundo.